Girl Meets Boy - Genisis

(Há muito tempo que não escrevia sobre os mistérios do sexo oposto!)

Um dia morreu. Decidiu morrer para se salvar. Tinha sido há muito tempo. Quis salvar-se, quis salvar o seu coração, quis salvar a sua sanidade, quis salvar o seu amor-próprio, quis salvar os seus princípios. E por isso morreu ao fim de anos ao seu lado. Percebeu que estava melhor sozinha e que seria mais feliz assim. Nunca se arrependeu da sua decisão. Mas lamentava que, ao fim de tantos anos, não tivesse conseguido ressuscitar. Os anos passaram-se, uma mão cheia deles, entre dias mais frios que mornos, numa apatia sufocante, numa solidão imensurável, numa dor frustrante que não a permitia regressar à vida. É que afinal de contas tinha sido uma morte para renascer. E nunca foi capaz de o fazer. Quando decidiu morrer, queria amar-se e dar amor a quem o merecesse. Mas chegou a um ponto que já só queria dar o seu amor a quem o quisesse. Mas nunca ninguém o quis, nem nunca ninguém o procurou nesse punhado de anos. Até que um dia, que poderia ser um dia como outro qualquer, a sua ressurreição começou a tomar forma, sem que ela alguma vez o sonhasse. Era o último dia do ano e arrastaram-na para uma celebração que odiava. Pior, no meio de desconhecidos, numa situação assustadora. Mas a passagem de ano, ou Reveillon como lhe queiram chamar, é uma celebração de renovação e renascer podia ser bem possível, mesmo no meio daquele cenário onde se sentia deslocada. Pouco passava da meia-noite quando anunciou a sua despedida, mas foi por muita insistência de quem a arrastara que decidiu ficar mais um pouco. Passados uns minutos, do nada, começaram a conversar. Ela e um desconhecido. Ela fugia de desconhecidos. E foi horas depois que reparou que continuava a falar com um desconhecido. Um adorável desconhecido. Um desconhecido com quem tinha tantas coisas em comum que contado ninguém acreditaria. As coincidências nas suas histórias multiplicavam-se a um ritmo alucinante e no fim da noite, já no amanhecer, trocaram números de telefone. Nunca o tinha feito, mas sentiu-se mais viva que nunca. Na manhã seguinte, poucas horas depois de se terem despedido, o desconhecido adorável já estava a fazer planos para o primeiro dia do ano. E depois de mais horas e horas de coincidências e confidências, ela pensou que poderia ser este o momento pelo qual tinha esperado tanto tempo. Mas a vida tem um sentido de humor mais negro que o breu e rapidamente percebeu que, por mais viva que aquele agora-já-não-mais-desconhecido a fizesse sentir, nunca poderia ser a sua luz. A luz que lhe permitira aquecer os seus dias, a luz que iluminaria a sua vida, por mais que assim o desejasse. A vida assim não o quis, e foi uns meses depois que voltou a morrer. E ainda hoje, sente-se mais morta que nunca. Porque percebeu a força que o amor pode trazer ao seu ser, percebeu que merece amar e ser amada, mas também ele não o quis.