«Acredite que nunca pensei que fosse tão difícil escrever uma mísera lista... Logo eu, que nem para o supermercado faço lista, tenho agora que fazer uma lista com as "guidelines" do meu futuro... Eu que só faço listas de convidados cada vez que há uma janta especial... enfim! São 2 da manhã, na madrugada do dia da consulta. Não conseguia dormir só de pensar que ia chegar ao pé de si, pela 3ª vez, de mãos a abanar. Não podia ser, por isso fui buscar o papel e o lápis. Não que eu não tenha pensado no conteúdo deste TPC ao longo das últimas semanas, tal como lhe disse da última vez. Só não sei o que escrever... É que cada vez que lhe apresento um "objectivo" para a minha vida, não é válido! Confesso que me sinto um pouco às cegas. Este exercício não ajuda nada... Há dias vi um filme em que alguém dizia que em todos os filmes há a actriz principal e a actriz secundária e que temos sempre que deixar de agir como secundária e tomar o lugar de protagonistas na nossa vida. Aquilo fez-me pensar bastante, já que o meu maior objectivo é tomar as rédeas da minha vida e ser capaz de vivê-la em pleno. (já sei que vai dizer que este objectivo não presta...) Mas como é que eu posso tomar o controle da minha vida se a sensação que eu tenho é de nem sequer saber viver? E assim voltamos à velha e batida questão: TENHO QUE REAPRENDER A VIVER, aos 30 anos de idade. E o que eu gostava mesmo era de ter um manual de instruções ou de estalar os dedos e reaver a minha vida. Assusta-me esta história de reaprender a viver. É que eu olho para trás e penso que sempre tive a ilusão de que conduzi sempre os meus destinos... e veja onde vim parar? E sim, ilusão, porque a sensação que tenho é que sempre conduzi a minha vida por forma a agradar a gregos e troianos, fossem eles família, namorado ou amigos, esquecendo os meus desejos tantas vezes. De uma vez por todas gostava de me sentir menos pressionada, mais "egoísta"... mas eu não sei ser assim. Por outro lado, gostava de ser "guiada" por alguém... Alguém que me amasse, alguém Homem que me fizesse acreditar que sou uma Mulher. Uma mulher com M grande, capaz de apaixonar e de cativar, sem medos nem culpas. Gostava de ser capaz de aceitar um elogio, capaz de acreditar quando me dizem que têm saudades minhas, capaz de acreditar que pode haver amor genuíno de alguém por mim, acreditar que pode haver interesse de alguém por mim... Já não sei o que é isso há muitos anos... e talvez por não acreditar, não consiga voltar a saber gostar de alguém. Tenho saudades de ser amada e de amar alguém... sem pensar... sem temer o quer que seja. Gostava de me sentir uma pessoa bonita. Penso muitas vezes que só assim me sentiria uma pessoa válida, mas também sei que este é um raciocínio muito estúpido e fútil. Mas é verdade. Acho que se tivesse menos 20 quilos, se me arranjasse mais, se me cuidasse mais e fosse mais cuidadosa, as coisas seriam tão mais fáceis... Seria menos invisível talvez... Mas para isso acontecer teria que, uma vez mais, reaprender: a comer, a estar... E para isso é preciso ter força de vontade... A mesma força anímica que me levaria mais vezes ao ginásio, que me levaria a deixar de roer as unhas, que me levaria a fazer dieta... O problema é que as palavras amor próprio, auto estima e força de vontade saltaram fora do meu dicionário há bastante tempo... Uma coisa eu sei. Não quero voltar para o buraco de onde custei tanto a sair... nunca mais! Mas porque é que tem que ser tudo tão difícil? Eu só quero o que toda a gente quer... ser feliz.»O incrível é que já se passou mais de um ano... e pouco mudou. Isto sim é triste.